Uma caixa é uma caixa

Crónica de Opinião
Terça-feira, 17 Janeiro 2017
Uma caixa é uma caixa
  • Cláudia Sousa Pereira

 

Há temas que, sendo da política porque dizem respeito ao que nos governa, confesso ser incapaz de pensar para além de uma lógica quase comum. Falo de temas sobretudo relacionados com as finanças, um mundo que, para além da inevitável matemática vertida em equações e gráficos que só consigo, hélas!, apreciar esteticamente, mexem com a sociedade e as pessoas e, por isso, aparecem não no campo das ciências exactas, mas no das ciências sociais e, porque não, humanas.

Assim o quase-sempiterno assunto da Banca e da Caixa Geral de Depósitos tem-me dado que fazer. Muitos artigos de opinião, o acompanhamento regular das audições em comissões parlamentares onde trabalham aqueles que me representam, já que eu faço parte dos que ainda votam sempre. E, claro está (pois se são estes os momentos em que quem tem mais que fazer do que inteirar-se destas “politiquices” ganha argumentos para emitir opinião), algumas explicações, dos vários lados, aos microfones, em cenários de rua que, como todos os que estudamos e aprendemos em qualquer nível e assunto que seja, da física quântica ao ponto de crochet, podem ser cenários ruidosos e propiciadores de equívocos provocados por curto-circuitos de mensagens truncadas e desenquadradas.

O assunto é delicado já que se trata do Banco de todos nós e que, à semelhança do que devíamos fazer com o banco de jardim que também nos serve quando nos sentamos lá e serve aos outros que lá estão quando nós ainda ou já não estamos, devia ser bem tratado por quem o usa e sobretudo, ou seja como exemplo de cima, por quem dele cuida, mantendo-o útil e eficaz para o que serve. Um banco não é só uma instituição onde se guarda dinheiro e se cobra por isso, mas também é isso. Assim, a nossa Caixa, para além de um banco com todas as transacções que implicam vários tipos de investimentos, é também uma caixa, lugar onde se guardam bens de forma segura, aos cuidados de quem tem de ter a hombridade de se colocar acima dos seus interesses pessoais para corresponder aos interesses daqueles que lá guardam o que é seu mas também o que é de todos. Também é por isso que o chamado “subsídio de falhas”, que quem trabalha directamente com dinheiro nas empresas recebe, serve para casos de acertos por pequenos lapsos e não contempla a fraude. Quem não comete lapsos fica assim com mais dinheiro para se governar. Para isto é preciso que as contas primeiro se façam, depois que batam certo. E é por isso também que a prestação de contas, mesmo quando se trata de outras questões de gestão, é o elemento fundamental para a confiança dos utentes de uma instituição. E falo do governo e da oposição como instituições com as mesmíssimas responsabilidades para este efeito.

Do que li e ouvi sobre e do ex-administrador da Caixa (a quem só cobiço os rendimentos já que o trabalho e a responsabilidade que lhes equivalem me parecem ser exigentíssimos e inalcançáveis o que, por isso e como a cobiça se define, é uma ambição que não chega nem se deve concretizar) gostei de perceber que partilhava de um princípio que demonstrou ter: de que uma equipa vale tanto no momento em que se recebem os louvores ou as críticas por dirigi-la, como merece que dela se afaste quem discorda do seu funcionamento ou, como no caso em apreço, deixe de a ter. E foi ao perder a maior parte da equipa para administrar aquela instituição que o senhor saiu e, porque esse não era um problema dele, lá entregou a sua badalada declaração de património. Tenho pena que alguém assim não tome conta da Caixa onde o país guarda o seu dinheiro. Parece-me que o hábito de “fazer caixinha” tem mais sucesso numa certa maneira de fazer oposição e se perdeu uma boa oportunidade de fazer as coisas bem. O que também demonstra que os 42 anos de democracia são ainda o princípio. Haja esperança! Até para a semana.

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