Uma crónica sobre tapetes 3

Crónica de Opinião
Terça-feira, 14 Abril 2020
Uma crónica sobre tapetes 3
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Hoje a crónica é também sobre um tipo de tapete que vamos ter de passar a usar muito mais: o mouse-pad, ou seja aquele tapetinho em que movimentamos o rato do computador para vermos, ouvirmos e falarmos através dele. Vamos, quero dizer, nós os que temos que, ou queremos, manter contacto com o mundo sem presenças perigosas para a saúde pública.
Pouco mais de metade do mundo já está relativamente preparado para a ubiquidade da comunicação: ao mesmo tempo, em lugares diferentes, o mesmo discurso. Discursos que, depois, se podem revisitar ipsis verbis, assíncronamen te. Mais do que hardware, skills, pads, IPads ou outros confortos que, finalmente, possam vir a ser ferramentas e não luxos ou negociatas (talvez Magalhães seja mais do que nome de circum-navegador na nossa memória e se faça justiça retroactivamente); mais do que isto que é o básico, obrigatório e imprescindível, e que todos os responsáveis por orçamentos não poderão empatar (sob pena de algo não estar a bater mesmo nada certo nesta democracia), o que importa é que quem use e usufrua deste universo tecnológico esteja consciente do que vai estar em causa. Em público e em privado fazem-se e dizem-se coisas diferentes. É disto que estamos mesmo a falar: um muito maior escrutínio do que já não se faz só dentro de uma sala, já que a privacidade é apenas um pressuposto facilmente deposto.
Que os novos utilizadores das tecnologias, depois do b-a-ba inicial, aprendam as outras regras do comportamento em público. Sob pena de passarem por vários adjectivos: do preguiçoso ou medroso ou altivo – para quem não intervém no mesmo plano – ao tonto, fala-barato ou provocador – para quem parece não medir o que diz ou quando diz, em público.
Todos quantos passarmos a deslizar neste plano tecnológico, somos chamados a fazê-lo consciente e criticamente, sem qualquer espécie de atitude passional que o imponha a tudo e todos, a toda a hora – é que ao discurso fora do contexto real chama-se delírio e a tal ubiquidade da internet propicia-o; ou numa atitude religiosa, que o considere o milagre salvífico da Humanidade. Para isso continuamos a ter Deus, naquela relação que o desassossegado Pessoa nos descreveu: “Nasci num tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê.”
Até para a semana.

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