Uma estrada e uma ministra

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 29 Novembro 2018
Uma estrada e uma ministra
  • Eduardo Luciano

 

 

Em Borba uma estrada ruiu. Não se tratou de um acidente, de uma vingança da natureza ou de um castigo de uma qualquer divindade irada.

Em Borba a estrada ruiu porque a ganância gosta da prática da roleta russa com a arma apontada à cabeça alheia. Gosta de jogos de casino onde a casa ganha sempre dando a ilusão aos jogadores que podem ser felizes.

Durante dias as notícias centraram-se na discussão sobre a atribuição das responsabilidades nas mortes dos que percorriam aquele fio de alcatrão que parecia suspenso das nuvens, com a conclusão quase inevitável de que a culpa era exclusivamente do Estado.

Abriram-se programas com a frase “o Estado voltou a falhar” discorrendo os participantes sobre os diversos níveis de responsabilidade, do governo à autarquia, das entidades com responsabilidades inspectivas às forças policiais. Podendo estar a ser injusto, não vi nem ouvi nenhuma intervenção que abrisse afirmando o óbvio: a estrada ruiu porque alguém escavou até à sua inevitável queda.

Seria tão interessante que a nota de abertura de um dos inúmeros debates sobre a matéria fosse: ganância de donos de pedreiras provoca a derrocada de uma estrada e a morte de duas pessoas. Seria, mas não aconteceu porque a lógica da sociedade em que vivemos é outra. É aquela que diz que para obter rendimento devemos ir até onde nos deixarem e se nos deixarem ir até à morte de pessoas a culpa não é nossa mas de quem não nos impediu.

Não estou a desculpabilizar os que falharam na missão dos que deviam inspeccionar, vigiar, impor restrições até porque esses são normalmente os que defendem que o Estado, que ocupam, deve reduzir-se ao mínimo e não se meter nessas coisas de controlar a cantada livre iniciativa e o espírito empreendedor. Estou apenas a estranhar que nessa distribuição de culpas a actividade do criminoso seja desculpada porque o polícia estava a dormir.

A ministra da Cultura afirmou que felizmente não lia jornais portugueses há quatro dias, porque estava fora do país, e foi trucidada por tudo o que mexe. Descontando os que perceberam que se tratava do exercício da ironia e apesar disso atribuíram um significado diferente às palavras, os outros vieram pedir a cabeça da senhora ora dizendo que era um ataque ao profissionalismo dos jornalistas portugueses, ora afirmando que uma ministra não pode dizer coisas daquelas ainda que as pense.

Estranho mundo em que os que passam a vida a dizer que os políticos são uns manhosos e nunca dizem o que pensam mas aquilo os eleitores querem ouvir, quando alguém no exercício de um cargo político diz o que pensa façam chover pedras porque quem está a exercer tal cargo não se pode dar ao luxo de dizer… o que pensa.

Concordem ou discordem da mulher mas não a julguem pelo facto de dizer o que pensa.

Até para a semana