Uma falsa sensação de segurança

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 25 Março 2020
Uma falsa sensação de segurança
  • Alberto Magalhães

 

 

Humana, demasiado humana, a sensação de que somos especiais face aos perigos, de que o que acontece aos outros, dificilmente nos tocará a nós. A bem dizer, esta fé de cada um na sua própria imunidade não afecta todos por igual. E ainda bem. A sociedade precisa de todos, dos que se arriscam e dos que se resguardam. Mas, é preciso dizê-lo, os que arriscam podem ser vítimas de uma falsa sensação de segurança.

Em meados de Janeiro, a responsável pela Direcção Geral da Saúde, interrogada por jornalistas sobre um novo vírus, surgido na China, garantia-lhes que a probabilidade dele chegar a Portugal era reduzidíssima. Poderemos dizer que a Dr.ª Graça Freitas transmitiu nessa altura, ao país e aos seus dirigentes, uma falsa sensação de segurança? É que, um mês e meio depois, foram diagnosticados os primeiros casos de covid-19, em Portugal.

Nessa altura, mantiveram-se as fronteiras escancaradas, porque fronteiras não param vírus e fechá-las dava-nos uma falsa sensação de segurança. Mas como as autoridades já sofriam, elas próprias e gravemente, desse mal, não se compraram a tempo testes de qualidade, ventiladores, máscaras, luvas e outros equipamentos de protecção para os profissionais de saúde, os funcionários de lares, de IPSSs várias e das forças de segurança. A Linha de Saúde 24 não foi reforçada, professores regressados de Itália foram aconselhados a ir dar aulas, doentes internados com pneumonias não foram testados, etc., etc. Tudo porque havia, nas nossas autoridades, sanitárias e políticas, uma infecção geral de falsa sensação de segurança.

Ontem, ouvi o Presidente da República dizer que fazer ‘demasiados’ testes nos pode dar uma falsa sensação de segurança. Tudo isto, confesso, me transmitiu uma verdadeira sensação de insegurança.