Uma lembrançazinha

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 23 Novembro 2017
Uma lembrançazinha
  • Eduardo Luciano

 

Este querido mês de Novembro, quente e solarengo, proporcionou a ida para a rua de milhares de pessoas que decidiram passear, juntas, pelas artérias da capital.
Enquanto passavam ia conversando em voz alta sobre direitos roubados e não repostos, sobre avanços no sentido de uma maior justiça na distribuição da riqueza, sobre a necessidade do próximo orçamento de Estado reflectir essas necessidades.
Nada de estranho ou nunca visto, com a pequena diferença de que pela primeira vez um dos partidos do arco-da-velha ser obrigado a governar com o apoio de outros partidos, sempre excluídos do famigerado arco.
Por essa razão e porque o partido do governo não perdeu a sua natureza, a tal que fez com que durante quarenta anos alinhasse nas mesmas políticas dos outros dois suportes do arco, com diferenças de linguagem ou nem por isso, as tensões são perfeitamente naturais entre os que defendem que o discurso de ruptura com a austeridade tem de corresponder à prática.
O resultado desta tensão consubstancia-se na possibilidade de ganhos efectivos para o lado dos espoliados pelas políticas prosseguidas durante os últimos 40 anos, com particular violência na legislatura que terminou em Outubro de 2015.
Aos que estranham a existência de tal tensão, sabendo-se que o governo tem no apoio parlamentar, pontual e negociado bilateralmente, a sua sobrevivência garantida, é preciso dizer que ninguém abdicou da sua natureza política, ideológica e de classe.
Aos que acham que os ganhos obtidos na actual legislatura se devem à bondade do partido do governo, é preciso lembrar as políticas de sentido contrário, defendidas pelo mesmo partido, normalmente com o apoio e carinho dos outros dois intérpretes das mesmas soluções políticas.
Estes passeios nas ruas da capital, acariciados pela temperatura amena que se faz sentir, pontuados de bandeiras e palavras de ordem, tem esse efeito sobre a memória dos que acham que o PS mudou ou que o governo é de esquerda. Recordar que tudo o que foi recuperado (e é apenas de recuperação que estamos a falar) tem como génese a luta determinada dos alvos dos roubos dos governos anteriores.
Num tempo em que a fulanização da política é o caminho fácil de identificação de soluções e em que se prefere falar do “governo Costa” a falar do governo PS é preciso lembrar o passado dos governos “Sócrates”, “Guterres”, “Soares” que não diferiam muito dos governos “Cavaco”, “Barroso”, “Santana” ou “Coelho”.
A diferença de algumas políticas, a recuperação de conquistas, não é uma benesse de um PS reconvertido a princípios social-democratas. É o resultado do mesmo de sempre. Capacidade de mobilização para afrontar um caminho que leva ao desastre.
Lembrem-se disto quando se sentirem tentados a colocar os ovos eleitorais todos no mesmo cesto, porque se se esquecerem voltam a ter a mesma omeleta. Aquela que resulta em política de direita, pura e dura, com mais ou menos raminho de salsa.

Até para a semana

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