Uma questão de Educação

Quinta-feira, 24 Fevereiro 2022
Uma questão de Educação

O título não é meu, mas de um ensaio de Jorge Buescu, físico e matemático, com o título “Matemática em Portugal: uma questão de educação”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

O autor aponta uma evolução histórica desoladora no ensino da matemática e das ciências em Portugal nos últimos séculos. Durante muito tempo não se ensinou quase nada nestas áreas (e outras) e o pouco que havia ia sendo destruído. Por exemplo, nos anos quarenta do século vinte os poucos matemáticos que havia, foram expulsos da universidade, como Bento de Jesus Caraça, mas o problema não era só repressão política: é que quase não havia uma comunidade de cientistas para dar continuidade. Perdemos muito tempo nestas áreas, enquanto outros países com que nos temos que comparar, alguns mais pobres que Portugal noutras épocas, investiram na educação e investigação. Chegámos ao 25 de Abril, com mais analfabetos que a maioria da Europa tinha cem ou duzentos anos antes.

Fez-se muito nestas últimas décadas, alargando-se a escolaridade até ao 12º ano, também com o crescimento de universidades, politécnicos e centros de investigação que colaboram com os mundos das várias ciências.

Mas ainda temos um lastro de muitas gerações.

Há questões que são preocupantes. Apenas algumas para iniciar a discussão que interessa a todos:

– O envelhecimento das classes docentes que não serão facilmente substituídas nos próximos anos. Há cerca de duas décadas que quase não há formação de novos professores no ensino obrigatório, até ao 12º ano;

– Uma tendência cada vez maior para a burocratização do ensino, com plataformas e mais plataformas informáticas, relatórios e justificações para tudo, controles que colidem com a liberdade de ensinar, que impedem o tempo necessário para a reflexão e estudo e o ensino. Acresce que os tempos para certas disciplinas foram cortados, levando a que estes professores tenham cada vez mais turmas e alunos, até à exaustão;

– Uma certa mentalidade e práticas facilitistas, muitas vezes imposta a partir dos centros de decisão, eivadas de alguma demagogia, com alguma imposição de modas apressadas com pretensas descobertas ou leituras em segunda mão;

– Alguns setores da sociedade que pensam que os seus descendentes, os alunos, são génios agora e no futuro, sociologismos em que se desculpa tudo, psicologismos em que se eleva o puerocentrismo, a criança no centro de tudo, a valor essencial e em que se banalizam comportamentos pretensamente hiperativos, sempre desculpáveis, os direitos mas não os deveres, e o trabalho continuado como opção para outros tempos.

Estes tempos de Covid e confinamentos agravaram a situação, sujeitaram a sociedade a uma menorização do pensamento e discussão, com ruídos permanentes e banalização das ideias. Há que ir mais além!

Tem que haver motivação, pedagogia para provocar o interesse, mas há que promover o trabalho, o estudo, o rigor, mesmo sem recompensas imediatas. Não adivinhamos os tempos futuros, mas sabemos que a sociedade só evolui com o conhecimento.

O presente e o futuro constroem-se com cooperação e trabalho individual, sem desculpas.

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