Uma tragédia sem fim à vista

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 03 Março 2023
Uma tragédia sem fim à vista
  • Glória Franco

 

Viva

Há muito tempo que, os assuntos ligados aos refugiados, passaram para um plano inferior na nossa comunicação social. Mas a verdade é que as tragédias continuam a existir, há barcos que a fazerem-se ao mar e os naufrágios a acontecer; há etnias que continuam a ser perseguidas e outras que vão sendo exterminadas; existem milhares de seres humanos deslocados dos seus países pelas mais diversas razões. O tempo vai passando, os acontecimentos vão-se repetindo e a normalidade instala-se.
As retóricas hospedam-se nas nossas “estáveis” vidas.
Os governos europeus reagem com leviandade; sabemos que é difícil pensar sobre algo em que não existe afinidade. Assim, os experimentalismos tomam conta do quotidiano, mas continuam a esquecer os direitos humanos.
Esta semana mais um pequeno barco de madeira, com cerca de 200 refugiados a bordo (maioritariamente paquistaneses, iranianos e afegãos), naufragou nas águas do Mediterrâneo, a 100 metros de uma praia italiana. Perderam-se aproximadamente 100 vidas entres homens, mulheres e crianças. Mais uma tragédia a pesar nas nossas consciências, ou não. O governo italiano, de extrema-direita, continua a defender uma lei que limita a atuação de barcos de resgate de migrantes usados por organizações não governamentais (ONG.)
O secretário-geral da ONU, António Guterres lembra que os direitos dos refugiados são direitos humanos. Mas não basta falar, é necessário criarem-se soluções na tentativa de acabar com este tráfico humano e, a União Europeia, tem de deixar de atuar como uma fortaleza e contribuir para que este problema seja resolvido na origem. É preciso tentar perceber porque as pessoas fogem dos seus países; saem por questões políticas; devido à pobreza extrema; por consequência das alterações climáticas; as razões podem ser muito diversas.
Para nós, portugueses, este devia ser um assunto de fácil entendimento pois como país de emigrantes conhecemos muito bem o que estes deslocados estão a passar, no entanto, este tema continua a desencadear ódios em muitos setores da sociedade. Ódios infundados que justificam maiores intervenções políticas e mais esclarecimentos para quem teima em ignorar este infortúnio.
Muitas vezes no centro destes dramas as religiões assumem o papel principal. Como ateia vejo o papel das religiões como uma das causas inibidoras do desenvolvimento das sociedades. Mas, juntamente com as religiões, as políticas mercantilistas continuam a controlar os regimes e as vidas das pessoas.
Admiro, particularmente, pessoas livres e com pensamentos descomprometidos; gosto de questionamentos e por vezes identifico-me com algumas subversões. Ultimamente, por mais que procure, dificilmente encontro na Europa quem satisfaça este meu sentimento. Todas as práticas políticas, na tentativa de minimizar o problema, continuam a confrontarem-se com os interesses estabelecidos, continuam a não ter força suficiente para colocar, no lugar dos muros, pontes de entendimentos. Estas legitimações construídas em torno de indecisões, tendem a ser consumidas pelos interesses alicerçados em regimes egocêntricos.
É imperioso legitimar políticas alternativas, políticas em que o Homem seja apenas o Homem e não o representante de uma determinada religião, etnia ou nação. Torna-se premente reclamar políticas transnacionais em que os direitos humanos sejam o pilar das ações.
Se existe uma necessidade de rotura sistémica então que a assumamos. São, muitas vezes, as reflexões inconformistas das sociedades que nos ajudam a crescer, são as utopias que nos fazem refletir.

Saudações LIVRE ’s
Até para a semana

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