Uns aguentam, outros não…

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 27 Outubro 2022
Uns aguentam, outros não…
  • Sara Fernandes

António Costa Silva, ministro da Economia, declarou recentemente que «as empresas não estão preparadas para a taxa sobre lucros excessivos.» E acrescentou: «nós temos que ter muito cuidado com aquilo que fazemos na mecânica e na relojoaria da economia porque, se mexermos excessivamente, de um lado, arriscamos, amanhã, termos operadores em colapso e do outro lado os consumidores sem serem abastecidos.»

Apesar de já terem vindo a público declarações de controvérsia com outros membros do Governo, como não podiam deixar de aconselhar os peritos em comunicação, sempre atentos ao que se diz, mas nada ao que se faz, a verdade é que quem fez estas declarações criticou ainda os portugueses que hostilizam as empresas e os empresários, que tratam o lucro “como um pecado” e atacam o grande capital.

Clarifiquemos!

Existem em Portugal 99,9% de empresas classificadas como micro, pequenas e médias. Não são estas claramente as “pecadoras”. Estas são igualmente atingidas pelas medidas de super-protecção com as delicadas e coitadinhas multinacionais, tão frágeis e sensíveis como a engrenagem de um relógio.

Apenas 0,1% das empresas portuguesas são classificadas pelo INE como grandes empresas (e estas com volumes de negócios também eles muito díspares, dos milhares de milhões das do princípio, às dezenas de milhões das mais para o final da lista das 500 maiores). Além destas 0,1% de grandes empresas nacionais, há um conjunto de enormes empresas transnacionais, financeiras e industriais, cujos impostos não são pagos no nosso país, mas que têm a maior simpatia dos nossos governantes.

A acumulação de capital e a sua consagração como poder absoluto é a principal característica do sistema capitalista e as consequências sociais da concentração do poder económico nas mãos daqueles que controlam as “grandes empresas” tem sido uma preocupação constante, tanto de economistas como de políticos desde o final do século XIX. Vários estudos foram publicados sobre os efeitos nefastos desta “concentração” sobre o trabalho, os consumidores e os investidores, bem como sobre os preços e a concorrência. O “grande capital” está intimamente ligado a uma ampla variedade de crimes que vão desde a exploração desenfreada de quem trabalha (vejam-se as novas formas de escravatura) até à corrupção de políticos, ao fomento da guerra e à censura do pensamento crítico. Como se vê hoje, mais do que nunca.

António Costa dizia, antes de provocar as eleições que tanto desejava, que não se podiam aumentar os salários porque isso iria provocar uma espiral inflacionista, mas o que se observou foi que os salários ficaram estagnados (a perder poder de compra) e a inflação galopou. É que o problema do aumento dos custos com salários, na perspectiva das grandes empresas, e a bênção do Partido Socialista, não é o aumento do custo dos produtos para o consumidor, mas sim a diminuição do lucro dessas mesmas empresas. Quando ouvimos hoje que os lucros da GALP aumentaram 86% nos primeiros 9 meses de 2022 e que em média nos primeiros 6 meses deste ano houve um aumento de 73% de lucros nas empresas do PSI20, a proposta de aumentos salariais ter de ter cuidado com a fragilidade filigrânica destas empresas… é caso para dizer, como alguém caricaturou em tempos de troika/PSD:

Salvem os milionários!!!!”

Até para a semana!

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com