Uns e os outros

Crónica de Opinião
Quarta-feira, 02 Dezembro 2020
Uns e os outros
  • José Policarpo

 

 

Não bastava a pandemia para nos atormentar a vida. O desaparecimento de homens que se destacaram no mundo do futebol nos últimos dias, tornaram este tempo mais difícil de compreender e de aceitar. Contudo, são vidas que estão acima das demais. Umas pela demonstração da sua genialidade, outras pela sua retidão, neste caso, diria pela honestidade intelectual, qualidade que rareia no seio da portugalidade.

O treinador de futebol Victor Oliveira morreu no sábado passado e era conhecido neste desporto como o homem das subidas de divisão. Salvo o erro, foram onze subidas que terá orientado como treinador principal, mas nunca lhe fora dada a oportunidade de treinar um dos grandes clubes do nosso país.

Não sendo eu um especialista na matéria, porém, das vezes que vi e ouvi o Victor Oliveira a dar entrevistas, fiquei com a impressão que pensava pela sua própria cabeça e não gostava de ser conotado com os “lambe bostas”. Esta ideia, vale o que vale, mas o facto de nunca ter tido um empresário para o representar poderá dizer alguma coisa.

O outro homem do futebol que aqui quero destacar nasceu na argentina e foi registado com o nome de Diego Armando Maradona. Morreu na passada sexta-feira aos sessenta anos vitima de complicações cardíacas. Não me vou deter com os aspetos da vida privada do jogador de futebol, esses ficarão a cargo dos mexeriqueiros: droga, mulheres, filhos fora do casamento e outros quejandos, mais ou menos sórdidos, se é que há vidas imaculadas.

Contudo, a genialidade do astro argentino penso que será inegável, indiscutível, diria mesmo tratar-se de um dogma. A jogada do segundo golo marcado à seleção inglesa no mundial do méxico de 1986, é um movimento estético sem paralelo. Maradona está para o futebol, como Picasso, Dali e Van Gogh estão para a pintura. O homem e o futebol confundiam-se, parecer ser uma incoerência, mas não é.

Com a morte de Diego Armando Maradona, para os apreciadores de futebol, ficámos todos mais pobres. A estética foi abalada indelevelmente, penso mesmo que não haverá outro desta dimensão. A sua altura era inversamente proporcional à sua dimensão como futebolista.

Não consigo apagar da minha memória a postura deste ser de peito para fora e de olhar altivo. A vitória era o seu objetivo, mas como ser mortal a vida derrotara-o, coisa que o futebol não o conseguira, pelo contrário imortalizou-o.

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