Vacinas em 4 andamentos

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 08 Fevereiro 2021
Vacinas em 4 andamentos
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

A semana passada as vacinas da Covid 19 estiveram – umas vezes pelas boas razões e outras vezes pelas más – nas bocas do mundo.

Diz o povo que quem paga adiantado fica mal servido. Este ditado quase se podia aplicar à Comissão Europeia e às farmacêuticas, em especial à AstraZeneca.

A União Europeia financiou com muitos milhões de euros a investigação para o desenvolvimento da vacina contra o Covid19 e com a AstraZeneca celebrou um contrato de 336 milhões de euros para produção e fornecimento de 400 milhões de doses da vacina a produzir por esta multinacional anglo-sueca.

Apesar do contrato a AstraZeneca informou a Comissão Europeia que iria cortar em 60% o fornecimento à U.E., entregando apenas 31 dos 80 milhões de doses vacinas que deve entregar no 1º trimestre deste ano.

Quando foi celebrado o contrato para financiar o processo acelerado de investigação e desenvolvimento das vacinas a eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias e outros deputados, questionaram a Comissão sobre de quem seria a vacina que ia ser paga pelos contribuintes. A resposta está aí.

Apesar de pagas pela União Europeia a propriedade das vacinas ficou com as farmacêuticas, que gerem a venda a quem mais paga.

Este financiamento da investigação por parte da União Europeia e o contrato de fornecimento foram sem dúvida passos importante para encontrar solução para a pandemia, mas mostra como a Comissão Europeia não foi capaz de proteger o interesse comum face ao lobby das farmacêuticas.

Apesar das vicissitudes, apesar de alguns pivots e comentadores das televisões pintarem de negro a situação, Portugal está a proceder à vacinação como previsto e, dentre os vários Estados Membros da União Europeia, está dentro da média europeia de vacinação, condicionado à disponibilidade das vacinas.

A demissão de Francisco Ramos do cargo de coordenador da task force da Vacinação foi outra notícia.

Estamos pouco habituados a que políticos e responsáveis ou gestores públicos se demitam quando cometem erros ou são apanhados em contra-mão. Não foi o caso de Francisco Ramos que se demitiu do cargo não por algo que tenha feito mas porque assumiu a responsabilidade por irregularidades na vacinação no Hospital que dirige e retirou consequências.

Um gesto digno e que só lhe ficou bem. Pena é que outros que protagonizaram irregularidades se tenham escondido atrás de desculpas esfarrapadas.

E com isto entramos noutras más razões que puseram a vacinação em Portugal na boca do mundo.

Foi há cerca de três semanas, com o Presidente da Camara de Reguengos de Monsaraz e simultaneamente presidente da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, que detém um Lar de Idosos, que se inaugurou uma procissão de casos de pessoas que sem reunirem as condições para serem consideradas prioritárias na vacinação contra o Covi-19, passaram à frente de muita gente e conseguiram ser vacinados.

E é ver uma lista grande de autarcas, provedores e administradores de IPSS, cônjuges e outros familiares, contabilistas, funcionários administrativos e padres, que sem direito e sem um pingo de pudor, arregaçaram a manga para receber um benefício para que não tinham direito, indiferentes às regras e à ética a que, em muitos casos, estão obrigados.

Até a Presidente do Grupo Luz e toda a administração foram vacinados antes de médicos, quando o pessoal dos hospitais privados ainda não estava sequer a receber vacinas.

Claro que todos arranjaram justificações: Uns porque iam à instituição, outros porque apenas se apresentaram porque foram chamados, outros porque tinham ido buscar o marido ou a mulher e outros porque estavam ali e já agora ficavam despachados. Outros ainda porque não se ia deitar fora um bem precioso como uma vacina “sobrante” e quase tinham feito o favor de ser vacinados.

O Governo e o Primeiro Ministro nesta situação deveriam ter tido uma acção de condenação pública e firme logo que o 1º caso foi conhecido, responsabilizando e tirando as devidas consequências – fossem elas quais fossem. Ao ficar calado nesse primeiro caso António Costa deu o sinal contrário e não pôs travão no que se passava.

O facto de o Governo remeter agora os casos para investigação pela PJ, apesar de relevante, não afasta a desconfiança que criou e que fragiliza um processo que deveria ser rigoroso e transparente.

Até para a semana!

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