Vacinas para todos?

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 25 Fevereiro 2021
Vacinas para todos?
  • Eduardo Luciano

 

 

Não há dia em que não surja uma notícia sobre as vacinas que previnem a infecção respiratória pelo sars-cov-2. Ora se discute o grau de eficácia, ora se discute o plano de vacinação, ora se discutem as opções tomadas na negociação e aquisição de vacinas, ora se discute a capacidade de promover a vacinação, entre muitos outros temas relacionados com aquilo que parece ser a única boia de salvação.

No meio de tantas dúvidas de quem sabe e de certezas de quem não sabe, algumas questões vão sendo empurradas para fora da bolha de todas controvérsias e uma delas é a profunda desigualdade na distribuição das vacinas pelo mundo.

Em Janeiro a Organização Mundial de Saúde alertava para o facto dos países mais ricos terem comprado mais doses de vacinas do que o número total de habitantes do planeta, calculando que os mais pobres só teriam acesso à vacinação em 2024.

É certo que os recentes acordos bilaterais de adesão ao programa da OMS, denominado Covax, poderão minimizar esta gritante desigualdade de acesso à vacinação mas não deixa de ser paradigmático este salve-se quem puder perante uma crise sanitária global, mesmo sabendo que não há fim da pandemia sem combate global à disseminação do vírus.

Um exemplo deste entendimento foram umas declarações de um responsável britânico, já há algum tempo, onde afirmava toda a solidariedade com os outros países europeus mas, claro, primeiro os ingleses.

A vacina parece ser agora a grande moeda de comércio internacional que até pode servir para comprar a decisão instalar uma embaixada em Jerusalém como acontece com a Guatemala, as Honduras ou a República Checa. No caso da Guatemala trata-se de uma verdadeira promoção de fim de estação: cinco mil vacinas por uma representação diplomática.

Todos sabemos que vivemos num mundo desigual mas não deixa de ser espantoso como essa desigualdade se entranhou de tal forma na nossa vida que a maioria das pessoas nem se questiona sobre ela, mesmo que em causa estejam vidas humanas.

Como o mercado tudo regula e as oportunidades são para serem aproveitadas, os gigantes da indústria farmacêutica vendem a quem dá mais obedecendo a um único objectivo: a maximização dos seus lucros.

É o mesmo princípio que leva um hospital privado a recusar assistência médica sem o respectivo pagamento, a uma cidadã vítima de um acidente nas suas instalações.

Como somos um país civilizado temos um Serviço Nacional de Saúde e a cidadã acabou por ser assistida no hospital público mais próximo.

Comecei a falar de vacinas e acabei a falar de escadas rolantes, mas na verdade o que eu queria mesmo dizer é que a saúde de um ser humano, viva em Portugal, na Suécia ou no Burundi não pode depender da avidez de lucro de outro ser humano.

Até para a semana

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