Vamos lá ver se nos entendemos

Crónica de Opinião
Terça-feira, 05 Maio 2020
Vamos lá ver se nos entendemos
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

“Vamos lá ver se nos entendemos” costuma ser o início de uma conversa em que, partindo de pontos de vista discordantes, quem pronuncia a expressão tenta levar a sua opinião a melhor e põe a discordância sobretudo como uma dificuldade de comunicação. Não é aqui o caso, em que o assunto é a fase que se segue nos comportamentos sociais que vamos ter de adoptar, estejam ou não vertidos numa lei, num decreto ou numa ordem de serviço, já que quanto ao que nestes estiver não há forma de contornar sem prevaricar.
Entrámos na fase probatória de quem tem mesmo de se saber comportar em sociedade por uma questão de saúde. E, como sempre, isso tem a ver com a formação pessoal, a tal educação para além da instrução, que quando ausente por vicissitudes várias só se colmata com muita e exercitada actividade das celulazinhas cinzentas e um treinado gesto de empatia, que é o que chamamos à capacidade de pensarmos nos outros para além de nós, mas incluindo-nos também nos outros.
Do que se sabe sobre o vírus, e que a frustração da ciência diz que é pouco, já sabemos o que devemos fazer ou, pelo menos, o que não devemos fazer. A chatice é que, tirando as demonstrações de afecto que andamos há décadas a ouvir dizer que temos de ter com “o próximo” e que vamos ter de suspender, o resto até é coisa que todos sabemos que devia ser assim: água e sabão com fartura e ter consciência que o que sai de dentro de nós não é para partilhar com os outros. Asseio, portanto. Daquele que até achávamos que por ser demais não nos permitia ganhar anti-corpos, respaldados que estávamos com o adágio do “tudo o que é demais é erro”. E que depois tínhamos de explicar melhor quando o contrário, o “nunca é demais”, também era coisa de bom-senso.
Pois é disso mesmo que vamos depender: do bom-senso. Na esperança de que quem não esteja habituado a corresponder-lhe, mais dado a obediências ou, pelo contrário, a desobediências ao abrigo de uma noção muito própria do que é normal e fica bem, perceba finalmente que o que faz ou diz tem mesmo impacto. Primeiro nos que estão mais perto, e depois integrando um rebanho a que, por mais único e exclusivo que se ache, vai acabar por pertencer mesmo sentindo-se insultado.
Pensar nas circunstâncias e nos contextos ajuda muito a viver em sociedade. E a conviver. Mesmo que o medo, por exemplo e para não ser inconveniente, às vezes pareça impedir-nos de o fazer. Mais ainda: pensar ajuda, porque ajuda a entender. E é por isso que eu repito, qual oração mas sem poderes encantatórios: “vamos lá ver se nos entendemos”.
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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