Vandalismos, apenas perrguntas

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 13 Abril 2017
Vandalismos, apenas perrguntas
  • Eduardo Luciano

 

 

Na passada semana um grupo muito significativo de jovens foi expulso de hotel numa estância de veraneio. Muitos dos comentários e análises construídos a partir desta informação procuraram, afanosamente, culpados e responsáveis fugindo, com honrosas excepções, à compreensão dos comportamentos gerados.

Como sempre nestas situações, as generalizações apenas servem para esconder as possíveis razões que levam a comportamentos grupais reprováveis e a actos de vandalismo condenáveis.

Terá sido toda uma geração que andou a vandalizar o hotel onde os jovens foram despejados?

Será que toda a geração anterior se demitiu de educar os filhos e construiu “os monstros” que andaram a partir tudo o que apanharam pela frente?

Será que aqueles que nas redes sociais insultam diariamente todos os que não pensam como eles, têm um comportamento muito diferente do jovem que atirou um colchão pela janela do hotel?

Será que os comentadores dos diversos programas desportivos, quando insinuam que o árbitro errou de propósito para beneficiar este ou aquele, não se comportam nesse momento como o rapaz ou a rapariga que mergulhou a televisão na banheira?

Será que a senhora que fez declarações lamentáveis procurando a mera desculpabilização, não estaria nesse momento a cometer um acto com a mesma gravidade de quem partiu uma porta com um pontapé?

Na minha opinião, não se tratam de excessos ocasionais, coisas da irreverência da juventude, ou episódios que podem ser atribuídos a uma resposta ao mau serviço prestado pela unidade hoteleira.

Para uma tentativa de compreensão teremos que tentar perceber como e para quê formamos os nossos jovens. Estamos preocupados em que sejam interventivos, críticos, com capacidade para colocar em questão ordens e orientações, ou estamos mais preocupados em que tenham um treino intensivo que lhes proporcione uma entrada no mundo do trabalho, qual mão-de-obra amestrada que lhes garanta a sobrevivência?

Quando surgem estas notícias, quando assisto às praxes académicas, quando olho para os programas das queimas das fitas, quando percebo as escolhas dos destinos das viagens de finalistas de jovens que passaram quinze anos na escola e estão prestes a obter uma licenciatura, lembro-me sempre de um pai que, durante uma reunião com a professora do ensino básico, disse que não fazia sentido a senhora mandar como trabalho para casa um exercício para construir rimas. “O meu filho não anda na escola para a aprender a ser poeta”, foi a afirmação que nunca mais me saiu da cabeça.

Deixemo-nos, todos, de moralismos e busca de culpados nos outros. Esta geração não é melhor nem pior do que as anteriores, contém gente genial e gente banal, gente que precisa de espaço e que irá conquistá-lo derrubando muros e ameias e gente amorfa que se sujeitará sem um pio à exploração do patrão, mas que no fim-de semana se encherá de coragem e irá em magote, de forma anónima, insultar o adepto da equipa de futebol adversária.

Tavez… apenas talvez, a coisa fosse diferente se tivessemos todos andado na escola também para aprender a ser poetas. Talvez… apenas talvez… tratassemos melhor a vida

Até para a semana

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