Vivenciar o Natal

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 22 Dezembro 2022
Vivenciar o Natal
  • Alexandra Moreira

 

 

Habitualmente dispenso a televisão, mas não passo sem a companhia intimista da rádio. Uma destas manhãs, fugindo ao alarido histriónico dos programas radiofónicos da manhã, agravado pelas incontornáveis canções desta quadra, sintonizei uma belíssima reportagem, na Antena 1.

Contou-se sobre o recomeço de vida de alguns dos 300 refugiados acolhidos há um ano no nosso país e ligados ao Instituto Nacional de Música do Afeganistão, que, como é sabido, foi recentemente proscrito pelo regime talibã.

Ouviram-se, entre outros, os relatos de uma professora de ciências na anterior vida, atualmente grata por um emprego a lavar loiça e por ter consigo a família nuclear, e de um professor de pintura e gestor de uma galeria de arte, agora travestido em pintor de superfícies. As palavras deste último, pronunciadas com uma suavidade cansada, ficaram a ecoar estrondosamente. Dizia ele: “sinto-me seguro; só preciso disso”.

Por cá, tendemos a desconhecer aquilo de que precisamos e a desvalorizar o que parece ser garantido – apesar de não o ser. A paz, a liberdade de expressão, a nossa segurança e dos nossos entes queridos, são conquistas voláteis, como o demonstra a nossa História recente.

Em vésperas de mais um Natal, cristão ou laico, o benefício da reunião familiar em paz e segurança devia afirmar-se em toda a sua grandeza de valor, dispensando a azáfama inveterada da compra de presentes e a comezaina desenfreada.

Cá por casa inaugurámos há uns anos a prática de prescindirmos da troca de presentes, optando por fazer uma coleta entre nós, que entregamos a uma instituição benemérita e carenciada. Este ano, a presenteada será uma associação que acolhe animais abandonados, cujas instalações foram gravemente atingidas pelas recentes inundações.

Há muitas mais associações na área da solidariedade que dependem de apoios privados. São os casos, em Évora, nomeadamente, da Associação Pão e Paz, que confeciona e distribui 125 refeições diárias a pessoas de escassas possibilidades, onde podem ser entregues bens alimentares, e o Cantinho dos Animais, que diariamente experimenta a aflição financeira de ter que alimentar dezenas de gatos e de cães abandonados.

Viver o Natal pode até ser simplesmente isso: partilhar com quem menos tem e pode, seja quem for e seja em que área for, que a solidariedade não se mede, não discrimina, não exclui – vale inteiramente em cada dádiva.

A todos um Bom Natal e até para a semana!

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